sexta-feira, 13 de julho de 2012

Varejo Responsável: prepare sua empresa para os desafios do futuro

Pesquisa desenvolvida pela Fundação Dom Cabral aponta tendências de mercado e evidencia benefícios para os negócios que se adequarem às novas formas de produção e comercialização

Matéria publicada na revista Visão Empresarial ACIP



Empreender esforços e realizar investimentos em prol da responsabilidade social e da sustentabilidade ainda são tarefas pouco executadas nas micro e pequenas empresas, em parte pela dificuldade de entendimento sobre os temas, em parte por envolver novas questões relacionadas ao consumo que precisam passar por melhores debates a fim de facilitar a aplicação de estratégias que beneficiem o varejo e a sociedade simultaneamente.
O Centro de Desenvolvimento do Varejo Responsável (CDVR) da Fundação Dom Cabral, criado em 2007, desenvolveu um estudo para identificar elementos importantes para a construção de um "Código de Conduta do Varejo Responsável" e de um "Modelo do Varejo do Futuro", no intuito de fornecer subsídios importantes para o desenvolvimento de novas formas de produção, comercialização e consumo, que definam novos princípios e valores para fortalecer as relações comerciais e o futuro sustentável da sociedade brasileira.
A pesquisa, além de conscientizar empresários e consumidores sobre a importância da readequação de processos, atividades e hábitos, promove a compreensão das tendências de mercado para que as empresas, a população e os órgãos reguladores possam se preparar para os novos desafios que estão por vir.
Segundo o estudo, as empresas devem trabalhar pela sustentabilidade e direcionar-se em busca de práticas de conduta do varejo responsável por muitas razões, dentre elas:
- Receio da escassez de recursos naturais – tentativa de diminuir esse problema por meio de uma exploração que não considere apenas a dimensão econômica, o lucro a qualquer custo, mas também as implicações sociais e ambientais, respeitando a capacidade de reposição do planeta;
- Pressão dos consumidores – cada vez mais exigentes, os consumidores querem informações detalhadas sobre os produtos que estão consumindo, os malefícios que podem causar à saúde, os materiais utilizados na fabricação, se a empresa possui certificação ambiental, se adere a iniciativas em prol da sustentabilidade, entre outros detalhes. Tais exigências, estarão cada vez mais presentes na mente dos consumidores, influenciando suas escolhas e decisões de compra;
- Pressão da mídia - resultado da mudança da sociedade, reflete aquilo que as pessoas aprovam ou desaprovam, contribuindo para evidenciar condutas socialmente responsáveis e cobrar pelas mudanças necessárias ao bem comum;
- Antecipar-se à regulação global – assumir o controle do negócio para influenciar e construir o futuro. Antecipar-se à regulação legal, propondo políticas e iniciativas inovadoras é fator-chave de sucesso e continuidade;
- Busca de lucro – as empresas percebem que os consumidores passaram a considerar preocupações sociais e ambientais no processo de compra. Por outro lado, a busca do lucro é parte legítima do esforço pela sustentabilidade em um mercado capitalista. Por isso, o consumidor que somente exigir preço, inovação e qualidade das empresas sem cobrar pelos cuidados ambientais e sociais também será responsável por produzir negócios não sustentáveis, já que o modelo de empresas que temos hoje é resultado de como o mercado opera. Assim, se o mercado define o modelo, vemos que ele já está em processo de mudança, fazendo com que as empresas também mudem para garantir suas participações nesse novo mercado a partir da adoção de comportamentos adequados nas dimensões ambientais e sociais.

A pesquisa ainda ressalta que existem três grandes questões sobre sustentabilidade que chamam a atenção dos varejistas: as mudanças climáticas, os resíduos e a cadeia de suprimentos. As embalagens são o grande foco, a questão mais tangível de sustentabilidade para o varejo. Há um grande apelo pela redução do uso de embalagens descartáveis no mundo todo, mas os esforços para promover essa diminuição ainda estão longe do ideal, considerando as normas de reciclagem e a ênfase atual na educação para a reutilização.

Tendências do Varejo

No item “Em busca do varejo do futuro”, o estudo evidenciou sete tendências-chave identificadas pelo CEO da empresa Tesco, Terry Leahy:

- O desejo dos consumidores pela simplicidade – empresas que fabricam ou vendem produtos e serviços que facilitem a vida dos consumidores serão muito bem recompensadas;
- O desejo dos consumidores de poupar tempo – “as pessoas estão trabalhando até mais tarde, e então querem comprar algo a caminho de casa. As lojas de conveniência de compras rápidas são o formato mais popular hoje em dia”;
- O fator “Imortalidade” – os consumidores buscam alimentos saudáveis e produtos de beleza, entre outros produtos e serviços que retardem o envelhecimento;
- Globalização – os impactos da globalização trazem cada vez mais oportunidades de expandir mercados e negócios pelo mundo;
- O acesso dos consumidores à informação – os consumidores podem comparar preços com apenas um clique no mouse e também “podem observar as práticas éticas ou ambientais de um varejista e descobrir o que está sendo dito dele em qualquer lugar do mundo”;
- A importância da confiança - cada vez mais importante para os consumidores, exige tempo para que seja construída e pode ser abalada num instante;
- O consumismo "verde" - os consumidores estão cada vez mais conscientes de suas pegadas de carbono e desejam o auxílio das empresas para lidar com as mudanças climáticas.
Todas essas tendências demonstram uma grande oportunidade para as lojas menores, que possuem flexibilidade para ajustar sua oferta de produtos, ao contrário das grandes redes que comumente ficam ligadas aos fornecedores de grandes volumes.

Princípios do Varejo Responsável

Os Princípios Operacionais do Varejo Responsável definidos pelos estudos do CDVR da Fundação Dom Cabral no decorrer dos anos de 2008 e 2009, constituem-se de recomendações e sugestões de conduta a serem adotadas pelas empresas em suas práticas de gestão sustentável:
Procedência dos produtos
É preciso disponibilizar aos consumidores, de forma clara e transparente, informações referentes à origem e fabricação dos produtos comercializados e os impactos que causam no meio ambiente.
Cadeia de suprimentos
As empresas devem trabalhar em prol da ampliação dos conceitos de sustentabilidade em toda a cadeia de valor, incentivando a cooperação, a sustentabilidade nos acordos contratuais com fornecedores e em especificações públicas, além de não trabalhar com parceiros que comprovadamente não observam os direitos fundamentais dos trabalhadores estabelecidos pelas convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Empregados
Os varejistas devem oferecer remunerações justas e locais de trabalho seguros, investindo na aprendizagem e no crescimento profissional dos funcionários e incentivando-os a levarem uma vida pessoal equilibrada e saudável.
Operações do varejo
As lojas e operações devem ser montadas com foco na sustentabilidade, com metas de zero desperdício e mínimo consumo de recursos e energia, além de operar com uma logística de baixo teor de carbono e contribuir para uma comunidade melhor. Os varejistas devem encorajar e permitir que seus consumidores tenham um estilo de vida de menor impacto, por meio da seleção de produtos sustentáveis e acesso a mais orientações sobre ofertas de serviços e descontos para usuários da internet.
Autorregulação
Empresas autorreguláveis, antecipam-se às exigências da legislação, controlando a sustentabilidade de seu negócio e servindo de exemplo para a sociedade.
Ética nos negócios
A concordância com as normas de sustentabilidade permite que a informação seja passada ao consumidor através de mensagens consistentes, gerando confiança e liderança. As empresas precisam preocupar-se em compensar os impactos econômicos, sociais e ambientais de seus negócios. Suas relações comerciais devem ser marcadas por comportamentos e valores éticos.
Marketing
Para divulgar produtos e serviços, os varejistas devem produzir conteúdos não enganosos, socialmente aceitos e em conformidade com as leis vigentes. As informações sobre a sustentabilidade de seus produtos e cadeias de suprimento devem ser divulgadas com total transparência, trabalhando para enfatizar a responsabilidade social vinculada à marca da empresa e a ética empregada em seus modelos de gestão. É preciso considerar o nível de interesse do consumidor ao informar sobre a procedência dos produtos, seus valores nutricionais e composições, transmitindo essas informações de forma clara, relevante e verdadeira.
Concorrentes
As empresas devem praticar a concorrência leal, utilizando-a como estímulo constante para a inovação e busca da excelência na qualidade dos produtos e serviços. Os varejistas devem praticar uma competição responsável pela sustentabilidade dos produtos e de recursos eficientes, considerando os impactos sobre a rentabilidade dos negócios.
Confiança
A construção sólida da confiança no varejo é conquistada através da transparência total na apresentação de relatórios da empresa sobre os impactos ao longo da cadeia de suprimentos.
Interatividade com o governo e a sociedade
Os varejistas devem participar das discussões sobre as questões que impactam seus negócios, dos debates sobre sustentabilidade e da difusão de conceitos e conhecimentos sobre responsabilidade social.
Meio ambiente
As empresas devem priorizar o respeito pela natureza, a redução dos impactos ambientais, promovendo ações de incentivo ao comprometimento das pessoas, aprimorando processos e aplicando as tecnologias adequadas voltadas ao desenvolvimento sustentável. Os varejistas também devem atuar intensamente para trabalhar a conscientização do consumidor e reduzir a utilização de embalagens descartáveis, além de mensurar os impactos que suas atividades geram no clima.

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